Nuno Garoupa

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domingo, dezembro 17, 2006

O meu décimo-primeiro artigo na Revista Atlântico (Nov 06)

HOLA MADRID
Más notícias para Zapatero
Nuno Garoupa

O mês de Novembro trouxe muito más notícias a José Luis Rodriguez Zapatero. Enquanto a situação no País Basco entrou num impasse perigoso, com Zapatero entalado entre as exigências dos terroristas e a crítica demolidora da direita, as eleições para o Parlament da Catalunha complicaram a sua situação política possivelmente de forma irremediável.

Ao colapso do tripartido catalão (socialistas, esquerda nacionalista e comunistas), Zapatero respondeu com uma aproximação à direita nacionalista da Catalunha (CiU) que permitiu a aprovação do Estatut catalão (numa versão bastante mais moderada que o documento enviado a Madrid pelo parlamento catalão) e do Orçamento para 2007. Para além disso conseguiu o afastamento de Maragall, o socialista que presidia à Generalitat, e a sua substituição por José Montilla, o seu Ministro de Indústria. Desenhava-se pois uma coligação entre o PSOE e a CiU para governar na Catalunha depois das eleições (a sociovergencia) e em Madrid (por virtude de um acordo parlamentar que poderia mesmo passar por assignar alguns departamentos do Estado à CiU). Isolava o PP à direita e libertava Zapatero dos seus sócios à esquerda (esquerda nacionalista e comunistas) que ameaçam transformar-se num passivo eleitoral. Mesmo dentro do PSOE, Zapatero parecia guinar à ala direita com os editoriais do El País a elogiar a nova moderação do Governo frente à captura do PP pela direita extrema (e não a extrema direita).

As eleições na Catalunha a 1 de Novembro comprometeram a estratégia de Zapatero. A queda acentuada dos socialistas (perderam cinco deputados) não correspondeu a um aumento significativo do voto na direita nacionalista da CiU (apenas ganharam dois deputados), mas sim nos comunistas (ganharam três deputados). A esquerda nacionalista resistiu (perdeu dois deputados muito provavelmente para a CiU). O PP não avançou (perdeu um deputado). O novo partido anti-nacionalista, Ciutadans, conseguiu três deputados (possivelmente dois dos socialistas e um dos populares).

A queda acentuada do PSC (socialistas na Catalunha) assustou bastante o PSOE em Madrid pois em 2004 os socialistas ganharam em Espanha pela vantagem eleitoral na Catalunha, no País Basco e na Andaluzia (perderam no resto de Espanha para o PP). Mas o pior estava para vir. A reedição do tripartido na Generalitat foi um golpe muito forte na moderação de Zapatero. É que o afastamento da CiU do governo catalão tem como consequência imediata a ruptura do pacto que existia em Madrid e leva Zapatero a ter que voltar a entender-se com a esquerda mais radical.

Parece-me contudo que o mais grave a médio prazo para Zapatero é o discurso do novo presidente da Generalitat. Para contrastar com o anterior tripartido de Maragall, Montilla insiste em posicionar a nova edição da coligação no centro-esquerda e não no mundo nacionalista. Isso são boas notícias para a Catalunha, isto é, o realinhamento do sistema partidário entre esquerda e direita, e não entre nacionalistas e espanholistas. Montilla procura desta forma estar menos condicionado pela esquerda nacionalista e afrontar a perda significativa de votos que sofreu para a abstenção e para o novo partido (Ciutadans) que precisamente se afirmou com um discurso anti-nacionalista.

O realinhamento do sistema partidário catalão é muito mau para Zapatero porque atira a CiU para os braços do PP. O PP não saiu bem das eleições de Novembro, tendo perdido votos e um deputado para os Ciutadans. Na semana pós-eleitoral, não foi ouvido nem achado para qualquer solução governativa. Não só a CiU tinha prometido jamais voltar a aliar-se com os populares (promessa feita diante de notário), como o resultado eleitoral tornou o PP absolutamente irrelevante na Catalunha. Mas o tripartido e o consequente realinhamento partidário são excelentes notícias.

No momento em que busca uma porta para inflectir políticas no País Basco sem dar razão ao PP, Zapatero vê-se atirado para os braços da esquerda mais radical e mais longe do centro político. O El País e Cadena Ser começam a falar na possibilidade do PP ganhar as próximas eleições. Volta-se a falar da guerra do Iraque e dos últimos anos do governo Aznar para condicionar qualquer aproximação entre CiU e o PP.

Tendo em conta o barril de pólvora em que está transformada a política anti-terrorista de Zapatero (por culpa essencialmente sua) e a previsível incapacidade do PSOE em obter ganhos eleitorais significativos nas eleições regionais e municipais de Maio de 2007, não é de descartar que Zapatero queira eleições em Fevereiro ou Março próximos. Para o PP, abre-se uma luz ao fundo do túnel. A aproximação a CiU passará necessariamente pelo afastamento da direita extrema. Não surpreenderia pois que Rajoy anuncie em breve uma remodelação da sua equipa com Zaplana e Acebes de saída.

Zapatero lutará pela sua sobrevivência política. Veremos que trunfos ainda poderá utilizar para evitar uma maioria não socialista. Mas demasiado depende agora de factores que lhe escapam das mãos. A paz no País Basco dar-lhe-ia um novo alento. Mas o regresso do terrorismo activo da ETA pode ser-lhe fatal. Já Rajoy que parecia arrumado e condenado a uma última derradeira derrota eleitoral pode afinal ter mais futuro do que se pensava. Volta a estar tudo em aberto... E isso é uma má notícia para Zapatero.

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