Nuno Garoupa

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quinta-feira, outubro 26, 2006

O meu décimo artigo na Revista Atlântico (Out 06)

HOLA MADRID
A verdadeira esquerda
Nuno Garoupa

A direita portuguesa idealiza o PP espanhol como o modelo de grande partido da direita que Portugal não tem. No último número da revista procurei mostrar que estão completamente arredados da realidade aqueles que assim pensam, confundem a realidade espanhola com os seus desejos. Curiosamente na esquerda acontece exactamente o mesmo. O PSOE e Zapatero são o que o PS e Sócrates não conseguem ser, a esquerda fracturante e moderna (ou pós-moderna) que tem uma agenda social progressista e humilha continuamente as bases sociais da direita que se revelam incapazes de acompanhar o desenvolvimento da sociedade espanhola tal como concebida pela esquerda. Zapatero é o líder da esquerda que falta a Portugal, Sócrates está demasiado comprometido com o centro e parece tão de direita que não ofende as bases sociais dessa direita conservadora e católica. Também aqui acho que muitos comentadores estão enganados.

Sócrates e Zapatero são na minha perspectiva muito semelhantes. Ambos são produtos do aparelho partidário, são políticos profissionais sem vida profissional ou cidadania fora do seu partido. É certo que ambos ascenderam às lideranças partidárias pela mão de líderes consagrados (Guterres e González respectivamente). Têm capacidade de congregar e federar interesses dentro do partido, de converter as habituais divergências internas em aspectos de somenos importância não só pelo carisma indiscutível que têm mas também pela promessa de regresso ao poder e de manter esse poder (um bálsamo para qualquer partido na oposição depois de passar anos no poder). Pode até ser que estes dois homens tenham personalidades diferente, mas o percurso partidário e o pragmatismo que tiveram para chegar à liderança e mantê-la é muito semelhante.

Precisamente Sócrates e Zapatero são essencialmente pragmáticos. A tese de Zapatero como ideólogo frente a um Sócrates do sentido comum só pode ter origem em observadores desatentos. Em condições muito diferentes, ambos têm políticas económicas e orçamentais ditas de direita à mistura com umas políticas sociais que essencialmente evitam reformas profundas no Estado-providência. Essa mistura é o melhor seguro de vida, em Espanha porque a economia cresce (logo o PSOE não quer ter a responsabilidade de inverter essa tendência ainda que um segundo mandato vá ser muito mais complicado pois a ausência dessas reformas provocou uma acelerada perda de competitividade nos últimos cinco anos) e em Portugal porque a economia não cresce (logo o PS não tem outra alternativa senão gerir conjunturalmente a economia tentando não abdicar demasiado das suas políticas sociais). Mas nem Sócrates nem Zapatero fizeram (e jamais farão) qualquer reforma estruturante na Administração Pública, na Justiça ou na Educação. A Saúde é uma excepção em Espanha porque é praticamente competência exclusiva dos governos autónomos.

Onde a esquerda portuguesa vê as grandes diferenças é em matérias de regulação social (casamento homossexual, identidade sexual, aborto, quotas para as mulheres), na hostilização declarada à Igreja Católica e aos valores conservadores (ensino religioso, não presença da hierarquia católica nas cerimónias do Estado e vice-versa) e na política externa agressivamente anti-americana (incluindo as relações privilegiadas com o Irão ou a Síria, a Aliança das Civilizações). Porém estas diferenças importantes e significativas resultam mais uma vez do pragmatismo dos líderes socialistas e não de ideologia ou de adesão a qualquer pós-modernismo de esquerda.

A maioria absoluta de Sócrates depende dos votantes de centro a quem uma regulação social fracturante ou uma política externa ostensivamente anti-americana pode não agradar. A incapacidade do PSD e do CDS para fazer oposição abre perspectivas de Sócrates poder atrair uma parte importante do eleitorado tradicional da direita. Assim, Sócrates tem de governar ao centro, fingindo que até implementa políticas de direita (uma mentira muitas vezes repetida na comunicação social). De vez em quando tem de sacar de um tema de regulação social (por exemplo, aborto) para mostrar as suas credenciais de esquerda moderna e conter qualquer possível crescimento eleitoral do PCP ou do BE. As sondagens mostram que a receita funciona.

Já Zapatero tem o problema inversa. A sua eleição resultou do esvaziamento eleitoral dos comunistas (agora com apenas 5 deputados num congresso de 350) e da convergência parlamentar com as esquerdas nacionalistas (a ERC da Catalunha, o BNG da Galiza). Tendo em conta as circunstâncias em que se realizaram as eleições de 14 de Março de 2004, é também pouco provável que Zapatero possa canibalizar significativamente o eleitorado do PP. O próprio PP está muito longe de estar em crise tudo indicando que consolidou o seu eleitorado natural. Assim, Zapatero tem de governar à esquerda o que não sendo verdade nas políticas económicas, tem de repercutir-se na regulação social e na política externa. Qualquer viragem à direita nesta matérias só causará perdas eleitorais significativas sem ganhos óbvios.

Zapatero ganhou em 2004 porque conseguiu reduzir o abstencionismo de esquerda e esvaziar os comunistas; Sócrates ganhou em 2005 derrotando o PSD e atraindo o centro-direita; Zapatero ganhou à esquerda e Sócrates ganhou à direita. Evidentemente Zapatero tem de governar à esquerda e Sócrates tem de governar à direita para manter o poder. Ambos governam como governam por necessidade e por pragmatismo, e não por ideologia. Fosse Sócrates líder do PSOE e seria um Zapatero; fosse Zapatero líder do PS e seria um Sócrates.

PS A visita do Presidente da República, Cavaco Silva, a Espanha no fim de Setembro teve o impacto que se esperava na sociedade espanhola e na promoção de Portugal, isto é, nulo. Realmente ainda há quem pensa neste mundo globalizado que a promoção económica e comercial de um país se faz entre chefes de Estado!

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