Nuno Garoupa

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domingo, maio 13, 2007

O meu décimo-quinto artigo na Revista Atlântico (Apr 07)

HOLA MADRID
A Política Guerracivilista
Nuno Garoupa


As grandes manifestações em toda a Espanha bem como junto às embaixadas espanholas em Buenos Aires, Miami, Ciudad de México, Zurique e Londres convocadas a 9 e 10 de Março pelo PP com o apoio das associações cívicas contrárias à actual política governamental no conflito basco (AVT, o Foro de Ermua) foram um passo mais daquilo que os media espanhóis chamam de ambiente guerracivilista que se vive em Espanha.

Desta vez tratou-se de condenar a decisão pelo governo socialista de permitir que De Juana Chaos, um etarra assassino de mais de uma vintena de pessoas (incluindo crianças), possa terminar a sua sentença em casa após uma prolongada greve da fome que atraiu as páginas de jornais internacionais como o Times (é muito curioso o apoio da imprensa britânica mais conservadora ao governo socialista em múltiplas ocasiões que poderá ter raízes sociológicas na visão britânica da Europa do Sul que remonta ao século dezanove onde a esquerda romântica do progresso enfrenta uma direita reaccionária católica obscurantista). A libertação de De Juana Chaos, um dos interlocutores privilegiados da ETA no actual processo de negociação (que tal como já tínhamos previsto nestas páginas não foi interrompido pelo atentado do 30D mas apenas suspenso num primeiro momento e continuado de forma mais discreta após um curto período de nojo), era a primeira exigência da ETA para continuar a negociar como deixou claro o líder do ilegalizado Batasuna, Arnaldo Otegi (a segunda condição é o reconhecimento de Navarra como parte integrante do País Basco). O governo socialista, pela boca do Ministro do Interior Alfredo Pérez Rubalcaba, justificou esta concessão pela necessidade de evitar a morte de De Juana Chaos em consequência da prolongada greve da fome (que o transformaria num mártir para os terroristas).

O que o governo do PSOE menosprezou foi a extensão da impopularidade dessa medida, não só no seu partido (como publicamente assumiu o presidente cessante da Extremadura, Juan Carlos Rodríguez Ibarra), como dentro do seu eleitorado mais moderado (segundo várias sondagens, cerca de 45% do eleitorado socialista discordou da medida). A melhor prova de que desta vez o PSOE está seriamente preocupado com as consequências destas manifestações não só nas eleições municipais e regionais já em Maio mas também numas eleições gerais a menos de um ano de distância é a realização de uma manifestação a 17 de Março contra a guerra do Iraque numa tentativa de voltar a por esse tema na agenda mediática de forma a entalar o PP.

A política guerracivilista que se vive em Espanha hoje não remonta ao 11M e às últimas eleições como vende o El País, mas sim às eleições de 2000 em que o PP com Aznar teve maioria absoluta e o PSOE então liderado por Joaquin Almunia teve uma derrota histórica (mais profunda que a de 1996). Nessa altura, o PSOE debateu-se entre duas teses. Uma, a tese derrotada (liderada então por José Bono, mais tarde Ministro da Defesa de Zapatero sumariamente despedido logo que possível), que preconizava uma viragem ao centro supostamente ocupado por Aznar. Outra, a tese ganhadora (de Zapatero), que identificava a maioria do PP como resultado de uma maior abstenção eleitoral à esquerda e não com uma viragem ao centro da direita tradicional. O PSOE para voltar a governar deveria activamente motivar o seu eleitorado para votar de forma expressiva bem como isolar o PP (o pacto anti-PP entre sete ou oito partidos ainda em vigor). O espírito guerracivilista renasce pois da polarização que o PSOE decidiu protagonizar a partir de 2001 com o objectivo de encostar o PP à direita. Esse espírito foi sem dúvida profundamente ajudado pelos erros e desvarios da maioria absoluta de Aznar.

O 11M e as eleições de 2004 vindicaram a opção de Zapatero de duas formas complementares. Por um lado, convencendo o PSOE que deveria manter essa opção estratégica para voltar a ganhar as eleições (isto é, a segunda transição espanhola que passaria por subalternizar a direita e aproximar o sistema político e constitucional daquilo que Zapatero idealiza como tendo sido a 2a República de 1931-36). Por outro lado, reafirmando no PP a posição daqueles que não aceitam a derrota eleitoral de 2004. Por isso, o espírito guerracivilista em vez de desaparecer após o regresso socialista ao poder, expandiu-se ao ponto de o PSOE e o PP se enfrentarem por quase tudo e inviabilizar todas as reformas que requerem maiorias reforçadas no congresso.

A situação política espanhola neste momento é contrária ao centrismo tão ao gosto português. A polarização excessiva que se vive não pode terminar. As próximas eleições decidem-se por três ou quatro pontos percentuais. O primeiro partido, PP ou PSOE, a desmobilizar, a acalmar-se, a tentar uma viragem ao centro perderá as próximas eleições porque o seu eleitorado mais radical irá para a abstenção. Nessa medida o PSOE tem a vida mais dificultada pois necessita manter os votos dos comunistas (Izquierda Unida) bem como dos nacionalistas. Qualquer viagem ao centro passará uma factura eleitoral que Zapatero não pode pagar.

A grande incógnita será porventura o que possa acontecer depois das próximas eleições. A situação interna no PP como no PSOE pode abrir esperança a que o espirito guerracivilista não sobreviva para além de 2008, mas isso passará necessariamente pelo afastamento de Zapatero bem como Rajoy e Aznar. Não é nada claro que isso ocorra em 2008.

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