Nuno Garoupa

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terça-feira, setembro 26, 2006

O meu nono artigo na Revista Atlântico (Set 06)

HOLA MADRID
A refundação da direita ou a direita possível
Nuno Garoupa

Enquanto em Portugal uns pequenos partidos se dedicam à refundação da direita talvez não seja displicente olhar para a direita espanhola. Nos jornais e colunas de opinião a direita portuguesa inveja o êxito do projecto que foi e é o PP sem perceber precisamente que o PP só ganhou eleições quando se apresentou como um PSD moderado, muito pouco liberal, e conservador q.b. nos costumes como bem agrada à classe média. O PP da direita e da refundação, liberal ou neoliberal, estilo britânico nunca existiu e a existir jamais teria ganho as eleições de 1996.

Ao contrário do PSD e do CDS em Portugal, o PP resulta de um processo lento de aglutinação das várias direitas dispersas mas muito pouco liberais, dos pequenos senhores e dos caciques da província com a burguesia das grandes cidades, do mundo rural da Galiza aos centros financeiros de Madrid e de Valência, do conservadorismo de Castela e Leão, da Cantábria ou da Navarra aos interesses periféricos das Baleares ou das Canárias.

Ao contrário do que muitas vezes se vê escrito, o modelo não foi inventado por Manuel Fraga nem por Aznar em pleno anos 90, mas tem fortes raízes históricas em Espanha, portanto de difícil transplante para Portugal. O modelo do PP segue de perto experiências anteriores, a CEDA de Gil-Robles na 2a República e a própria UCD de Adolfo Suárez na transição. Mas se a CEDA e a UCD fracassaram foi por falta de coesão e excesso de protagonistas. Ambas enfermaram desde o princípio de problemas e disputas internas, de personalidades mais preocupadas em manter os seus lugares de ministro e as suas influências políticas. Daí que o PP cultivou o centralismo no seu presidente e suprimiu os protagonismos individuais, um partido espanhol e não uma federação de partidos regionais. O boom do mundo empresarial e industrial do início dos anos 90 favoreceu a consolidação do PP entre o catolicismo radical da Opus Dei e alta finança, entre a patronal da CEOE e os novos ricos da burguesia pós-fundos europeus.

Mas para ganhar eleições o PP teve que fazer dois importantes sacrifícios. Primeiro desfazer-se de forma pragmática da direita e recolocar-se no centro moderado. O afastamento de Manuel Fraga e todo o processo até à consagração de Aznar foi marcado por violentas crises internas que moldaram definitivamente a disciplina férrea e a unanimidade que ainda hoje impera no partido. Mais que ser de centro, Aznar teve a preocupação de apresentar um PP moderado; mais que conquistar o voto de centro, Aznar incentivou a abstenção da esquerda (o que lhe deu a maioria absoluta em 2000 e a derrota de 2004). Durante a sua presidência, PP foi um partido moderado, mais gaullista que thatcheriano, pouco inovador ideologicamente, onde eventualmente coube a direita mais liberal (durante muito tempo representada por Rodrigo Rato, então Ministro da Economia e hoje no FMI, e agora associada a Esperanza Aguirre, então Ministra da Educação e actual Presidente da Comunidade de Madrid) bem como a direita mais dura (então personificada por Francisco Álvarez Cascos, Ministro do Fomento, e agora associada à dupla Angel Acebes e Eduardo Zaplana, antigos Ministro do Interior e Ministro Porta-Voz do Governo respectivamente e actualmente número dois e três do PP) até ao centrismo (Alberto Gallardón, o actual alcalde de Madrid, ou Josep Piqué, antigo Ministro dos Assuntos Exteriores e actual líder do PP da Catalunha). Curiosamente o actual líder, Mariano Rajoy, sempre foi visto como um moderado pragmático, muito pouco ideologizado, uma ponte entre as diferentes tendências bem como entre Manuel Fraga e Aznar. Representava no momento da sua ascensão à liderança a simbiose entre as várias correntes de pensamento do PP.

A segunda operação cirúrgica que o PP teve de realizar para governar foi acercar-se às direitas nacionalistas que eventualmente não entraram no PP no processo de aglutinação. Estas direitas governavam nas suas comunidades (Catalunha, País Basco e Canárias) pelo que tinham muito a perder e pouco a ganhar com a sua integração no PP (contrastando por exemplo com a Navarra ou mesmo a Galiza). Por razões aritméticas, o PP precisou destas direitas em 1996 para governar e foi obrigado a engolir a realidade plurinacional de Espanha (a mesma realidade que tem atraiçoada a direita espanhola desde a 2a República).

Se a maioria absoluta de 2000 solidificou o projecto PP na mesma lógica de poder que a maioria absoluta de 1987 solidificou o PSD, a derrota de 2004 não tem comparação com as derrotas de 1995 ou de 2004 do PSD. Não creio que os atentados terroristas do 11 de Março sejam a principal razão para não encontrar paralelo entre o actual PP na oposição e o actual PSD ou o PSD de 1995. O PP nos últimos dois anos tem-se mantido razoavelmente unido (apesar de surgirem em Madrid e na Catalunha algumas divergências com a estratégia nacional), nas sondagens tem uma posição relativamente próxima aos 40% de intenções de voto e sem que o PSOE consiga descolar de forma sustentada, e faz uma oposição bastante activa e barulhenta numa situação económica favorável ao governo (veremos a seu tempo se efectiva). Uma situação que contrasta de forma nítida com o PSD e o CDS em Portugal.

A minha intuição é que a diferença entre o PP e o PSD deriva de uma história e realidade política muito diferente. O PSD pensa, e a prática mostrou desde 1995, que basta esperar que o governo apodreça para ganhar eleições. Uma ténue federação de descontentamentos mais o eleitorado tradicional e eis que regressamos ao poder. Infelizmente para a direita espanhola as coisas não funcionam assim. A derrota de 1993 quando o PSOE já estava podre e corrupto, a vitória marginal de 1996 com a subsequente coligação com os nacionalistas quando o PSOE já estava putrefacto, e a derrota de 2004 quando o PP ainda nem começava a apodrecer mostram que a estratégia do espera e ganharás não vai lá. Evidentemente que esta história do espera e ganharás também explica em parte porque Portugal está como está e a Espanha está onde está.

As reformas constitucionais que o governo PSOE empreendeu e vai continuar a empreender são um sério problema para o PP porque dificultam a constituição de uma maioria à direita do PSOE; fundamentalmente sem a direita catalã (a Lliga na 2a República e a CiU agora), a direita espanhola não governa. Para além disso, o sistema eleitoral em vigor favorece a cisão dos centristas em Madrid por exemplo (a perda dos governos da comunidade e da alcadia de Madrid como consequência seriam um desastre muito maior que a derrota de Manuel Fraga na Galiza) atraído por uma possível coligação com o PSOE (porém não devemos esquecer os fracassos do CDS de Suaréz e do PRD de Roca no final dos anos 80).

Em Espanha não se fala da refundação da direita porque o PP é a direita possível. O PP não entrou em crise como a direita portuguesa porque ainda não percebeu que Espanha existirá quando Zapatero terminar com as reformas constitucionais em curso. É que ao contrário do PSD, em Espanha o PP não sabe exactamente em que termos se vão disputar as próximas eleições, certamente não será na mesma Espanha de 2004. Mas quando chegados lá (previsivelmente em Março de 2008) o panorama ficará claro, Rajoy perderá segunda vez e será sacrificado (se evitar a maioria absoluta do PSOE sairá pela porta da frente), veremos então entre liberais (Aguirre ou Rato), moderados (Gallardón) e ultras (Acebes) quem poderá reconstituir a maioria à direita do PSOE.

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